A facilidade com que nos imbecilizamos, trocando os passos à consciência responsável de que nos dizemos possuidores, fruto de acções da nossa personalidade camaleónica. O ser enquanto humano está irremediavelmente perdido das suas origens, das suas convicções e das suas amizades. Esbatido pela falta de medo com que se encara a vida, revolteando entre o bem e o mal, entre o que sabemos que está certo e o que fazemos que está errado. A consciência é uma coisa, os actos são outra. A leviandade está dentro de nós, como parasita, tornando-nos farsantes da nossa própria ingenuidade. O mundo está farto de heróis e lições de moral, o mundo está obcecado por tristezas e desunião, queixando-se aqui e acolá da comichão que lhe faz a verdade.
Cada cabeça sua sentença
«A liberdade de escolha é um direito de todos... Mas só alguns a exercem com elegância.»
Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011
Não é nada pessoal. É simplesmente o enfartar dos dias, o calor que se vai tornando insuportável e que retira a lucidez ao cérebro, como num daqueles filmes há anos 70, em que as imagens esboroam uma eternidade pouco nítida, vincada por uma cor utópica. É só o cansaço de quem não vai fazendo nada, abandonando o corpo ao devaneio dos dias, ficando dependurado na melancolia das redes de praia. Ficamos assim, a dois passos do que somos, sem descortinar que direcção seguir, sem respirar este ar demasiado quente que nos vai refogando os pulmões, atordoando os sentidos, recalcando as memórias e desbotando quem fomos.Terça-feira, 26 de Julho de 2011
Sexta-feira, 24 de Junho de 2011
Quando nos julgamos reis de algo, não somos donos de coisa nenhuma. A eloquência de um pensamento superior fica abaixo da humildade de nada saber. O foco está na evolução interior, no crescer, no desenvolver capacidades humanas que nos levem à concretização de um ser espiritual, desenvolvido e moralmente capaz. Nem toda a ciência, nem a engenharia, nem toda a tecnologia do mundo está na ponta dos nossos dedos. O que temos é o que somos e o que somos revela-se na plenitude com que vivemos a vida. Na genuinidade dos nossos gestos, na curvatura das nossas costas ao próximo, no respeito mútuo e na salubridade que emprestamos à sociedade, cada vez mais doente e consumida de si própria. O individualismo trapaceiro, a vontade de ser melhor que o vizinho moribundo, a escassez de entreajuda e o amor pelo próprio umbigo estão a desfazer as ligações humanas. Hoje fazem-se coligações, sociedades, firmas, grupos de intrujões, cada burro a puxar a sua carroça. A ganância, mascarada de inveja, ocupa o grande plano que tapa o sol a cada dia.Terça-feira, 21 de Junho de 2011
Sei de cor o compasso musical da tua voz, sei do teu jeito de ser, da impaciência que provoca e do desajeito da tua alma pouco clara. Sei de ti nos nós dos meus dedos desavindos, sei do mundo que pisas, das convicções que esboroas em desengonçado paleio. Sei no que acreditam os teus olhos e do que percorre pela tua mente, tão complexa e extremista, quanto simples e modesta. Sei do teu corpo abandonado no meu, onde pousam os meus olhos e onde me esqueço de mim. Sei do efeito da tua ausência, perdido na pele, amarrotado em folhas de papel.
Vagarosa presença em mim, prolongada em efeitos secundários de consumo excessivo. A teatralidade que encenamos, a esperança do sonho americano. As horas em que te desdenho, desfiando tempo, inventando palavras. A composição onde te escrevo, te apago e te aprimoro, assim, como aqui, para te dizer que te adoro.
Domingo, 19 de Junho de 2011
Meu amigo. Estás sempre aí, não é? Mesmo quando, estupidamente, julgo que não, em medos de menina desprotegida, em manias ou teimas de atenção. E tu, nesse teu riso de menino, mal-comportado aqui entre nós, a fazer-me lembrar que nunca te foste embora, que estás para mim como o sol está para a vida, que me cuidas, me proteges, me aqueces com o teu sorriso e me arrefeces as ideias. Ainda que te escondas em baixo de saias alheias, ainda que te finjas despercebido, que vistas essa pele de “durão” e fantasies que me arrumas para canto. Meu amigo de bandeira branca, não declarado e muito menos proclamado, não te grito aos sete ventos e não me abraças a cada queda. Somos um caso a explorar, a estudar microscopicamente se alguém nos quiser incomodar. Fechados em nós, recônditos do mundo à nossa volta. Coração enorme esse que guardas no peito, que me abres de quando em vez, onde me tornas presa dos teus sentidos, coração meu, de amplo espaço, via aberta para o teu.
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
Rodopio valsante de intensidade inebriante. Ora voa, ora rebola, chão lamacento de pegadas impiedosas. A justiça do mundo não é questionável, já assim era quando chegamos. Vindos de outro mundo, quimera, universo paralelo, utopias dançantes, gritos surdos e liberdade que não acaba onde começa a minha. Um suspiro só, contar até dez, fechar os olhos e o mundo está de volta à sua órbita. E os pássaros cantam e os Homens gritam. As árvores balançam e os Homens guerreiam. O vento sopra e os Homens destroem. Se haverá justiça ninguém o poderá dizer. Mas o mundo está aqui, na palma da minha mão, da tua, da de todos nós, à espera de um gesto que o vire do avesso. O bem ou o mal. Consequência repentina, tardia, arrastada por nós, seres incompletos num universo perpendicular ao erro.